CAMPANHA “NÃO REELEJA NINGUÉM EM 2018” VEM PREOCUPANDO POLÍTICOS “PROFISSIONAIS”

03/07/2018

Espalhado nas redes sociais, internautas vem divulgando em grupos no Facebook, Instagram, Twitter pelo fim das regalias dos parlamentares e dos chamados políticos profissionais.

Segundo os idealizadores, recentemente, “as reformas políticas atendem apenas os interesses dos caciques que farão de tudo para permanecerem no poder. O povo clama por fazer uma faxina, não votar em políticos indiciados em corrupção!”.

O grupo pede que: “Se você concorda, compartilhe e dissemine essa campanha com o maior número possível de amigos”.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, conhecida por sua série de livros de divulgação sobre doenças mentais, é a dona da campanha pela não-reeleição de políticos. Para a médica, não reeleger ninguém é a forma de ‘ajudar a limpar as instituições políticas'”.

Para o analista Aldemario Araujo Castro , a solução é simplista porque não resolve o problema de fundo da representação política. “A simples escolha de “caras novas”, de candidatos que jamais exerceram mandatos eletivos, não garante ou indica uma melhora no triste quadro dos políticos eleitos. Considere, a título de ilustração, a seguinte situação. Um velho cacique político, eleito e reeleito com base na pura e simples compra de votos, ícone do fisiologismo mais rasteiro, resolve deixar as campanhas eleitorais e lançar o filho, jejuno nas pendengas nessa seara, como candidato. Júnior é uma “cara nova” como candidato, mas também um novo representante do que existe de pior em termos de atuação política. O novo, por si só, não resolve nada”.

Ainda segundo ele, é fundamental indicar os aspectos ou critérios a serem considerados na escolha de candidatos nos pleitos eleitorais. Os principais e mais importantes são os seguintes, a serem identificados em alguém que nunca exerceu um mandato ou em alguém que já exerce um mandato eletivo:

a) defesa dos mais relevantes interesses democráticos e populares. Com efeito, as mais significativas mazelas socioeconômicas não são obras do acaso, defeitos de funcionamento da sociedade ou meros resultados da corrupção. Leis, decisões de governo e a formatação de políticas públicas realizam, nas situações mais importantes, os interesses de determinados segmentos sociais em detrimento de outros. Na minha visão, o vínculo com segmentos populares (trabalhadores, estudantes, aposentados, artistas, intelectuais progressistas, etc.) e a consequente representação de seus interesses socioeconômicos é o aspecto mais importante para a definição de voto nos pleitos eleitorais institucionais;

b) as propostas defendidas pelo candidato para os mais relevantes temas em debate na sociedade indicam, com razoável precisão, como se dá a inserção do mesmo no complexo jogo de interesses socioeconômicos (como destacado no item anterior). Vejamos alguns exemplos emblemáticos. Como se posiciona em relação: a) a um teto de gastos públicos seletivo (aplicável às despesas relacionadas com direitos e políticas sociais e não aplicável às despesas financeiras com a dívida pública); b) a uma política tributária recheada de benefícios fiscais para setores privilegiados e com forte e majoritária pressão fiscal sobre o consumo e os rendimentos decorrentes do trabalho e c) aos vários e relevantíssimos aspectos das políticas monetárias, creditícias e cambiais que viabilizam a transferência de bilhões de reais para segmentos minoritários da população e são convenientemente esquecidos pela grande imprensa e pelas autoridades governamentais;

c) uma trajetória ética definida pela distância de escândalos de corrupção e condenações penais ou por improbidade administrativa. Nessa seara, a experiência profissional e de vida devem ser consideradas com especial cuidado, inclusive quanto aos vínculos de defesa de interesses no complexo tecido socioeconômico;

d) um mínimo de conhecimento técnico do funcionamento das instituições, das políticas públicas e da gestão econômico-financeira, incluída a tributação. Com efeito, um mandato parlamentar ou executivo envolve uma quantidade significativa de decisões na área dos negócios públicos. As várias assessorias institucionais são extremamente relevantes, mas não substituem (ou não devem substituir) a compreensão mínima das matérias pelo mandatário;

e) como pretende exercer o mandato, notadamente quanto aos mecanismos de consulta e audiência dos eleitores, dos segmentos sociais e movimentos organizados em entidades ou não. Nesse campo, as experiências de constituição de conselhos políticos de acompanhamento do mandato são extremamente interessantes.

Ademais, o centro de gravidade da política não está (ou não deve estar) no eleito ou mesmo no voto (pura e simplesmente). As grandes e profundas transformações requeridas pela realidade brasileira, sobretudo para enfrentar as gigantescas desigualdades socioeconômicas, passam necessariamente por um processo consistente e duradouro de mobilização e conscientização populares.



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